Arquivo de maio, 2008

Procura-se um crítico musical

Por: Henrique Teles    |    18 de maio de 2008

Nada disso que passou por sua cabeça agora, se você foi – ou teve um amigo artista – alvo de agressões gratuitas . Atente a tudo! Entenda a pressa do presente e a busca do tolo por um lugar ao sol pelo caminho mais curto. Para isso, ele é preciso e é preciso pisar em algumas cabeças.

Procura-se mesmo é por um crítico musical que visite a alma do artista para entender sua obra; saiba sua história, suas quinas e cabeçadas na vida; conheça suas esquinas, quadras, ruas, bairros, cidades; saiba ler a sua idade – musical; perceba suas dores, perfumes, odores; entenda o movimento da moda na roda do tempo e do espaço; um crítico que possa posar nu também; que dê-nos sua alma à leitura.

Procura-se um crítico de palavras agridoces, que use o ácido da sua saliva para descascar nossos escudos e melindres e desça não às chagas, mas às suas nascentes, porque perebas são só o que se vê, mas não só o que se sente. Desconjunta-nos, crítico, sem receio e com a melhor das intenções. O artista é sensível o suficiente e necessário para ler o que queres de nós. Dá-nos a dor das suas impressões, mas também o bálsamo da sua esperança. Porque por onde esta não anda, tudo é cinza; e por onde pisa, faz-se côr sua pegada.

Procura-se aflitamente um crítico musical, que nos sopre com o hálito da palavra, não com o bafo do berro e do escárnio – precisamos de novos ventos.

Para o nosso bem, precisamos da desconfortável presença de alguém que seja ao menos a pedra no caminho, que nos fará tropeçar e ir adiante, mas que queira nos ver de pé.

OUVINDO ESTRELAS.

Por: Eduardo Menezes (Téc. de Som)    |    13 de maio de 2008

[A autobiografia de Marco Mazzola]

  

Descobri esse livro com Robson Macaxeira, ele me falou “Dudz, você tem que ler isso”. E ele estava certo! Fiz a leitura quase de uma só vez, (mais de 250 pg.) e foi impossível desligar-me um só minuto da atração por toda história de Marco Mazzola.

A trajetória desse “Midas da musica” começa com sua participação ainda criança, no coral dos pequenos cantores da Guanabara, provavelmente vem dessa época a sua aguçada percepção auditiva.

Na adolescência  sua curiosidade em equipamentos eletrônicos, mesas de áudio, amplificadores de instrumentos,o manteve ligado a musica, tendo exercido a função de técnico e operador de áudio de bandas de baile, até sua entrada no seleto grupo de técnicos de estúdio evoluindo rapidamente para o papel de produtor.

Marco Mazzola produziu nomes como: Elis Regina, Milton Nascimento, Rita Lee, Jorge Bem Jor, Gilberto Gil, Ney Mato Grosso, Martinho da Vila, Gal Costa, Djavan e muitos outros.Também produziu ou co-produziu artistas internacionais como: Miles Davis, Quincy Jones, Manhatam Transfer, Liza Mineli e Frank Sinatra.

Mazza (olha a intimidade…rs) técnico, produtor, dono de estúdio e empresário, narra  passagens da nossa música, de como ele “induziu” artistas a seguirem seu faro e gravarem músicas (que num primeiro momento não gostariam de gravar e gravando foram sucesso); de  como convencia as gravadoras  sobre certos artistas e projetos  que ele acreditava serem viáveis, e de como sempre deu certo.

O livro é cheio de fatos curiosos com artistas e personagens da musica brasileira e internacional. Muitos “por quê?” dos últimos 30 anos da nossa musica estão lá e se eu contar não terá tanta propriedade como à narrativa do Mazzola. Fica ali registrada a importância dessa figura como produtor e amigo na carreira de artistas e grupos como; Raul Seixas, Belchior, Simone, Alceu Valença, Marina lima, R.P.M.(com quem Mazzola gravou um disco ao vivo, o primeiro em cd de vinil, sucesso absoluto de vendas  até pouco tempo), Zeca Boleiro, Ivete Sangalo, Rita Ribeiro, Chico Cesar. E seu envolvimento decisivo como arquiteto ou executor de projetos como: A arca de Noé (baseado na obra de Vinicius de Moraes) Saltimbancos trapalhões (os trapalhões , baseado na obra de Sergio Bardotti,Luiz Enriquez Bacalov e Chico Buarque de Holanda).

Recomendo como leitura obrigatória, para quem quer saber mais sobre a nossa música, é um livro que prende o leitor da primeira a ultima pagina.

No mais, “Viva Mazzola”, pois seu talento, transparência e fidelidade aos seus ideais e aos artistas, fez dele o maior produtor da época de ouro da nossa musica. Hoje, convalescida música, sofrida música, escachada música, mas isso é outra história…

 

 

A Marcha da Maconha

Por: Henrique Teles    |    2 de maio de 2008

- Não fumo essa bixiga. Digo logo. Odeio fumaça.
- Não incentivo ninguém a fumar. Aliás para o contrário pode contar comigo.
- Já temos muita droga na cabeça – e droga natural de verdade - só não sabemos usar direitinho
- Prefiro as endóginas, mas não sou idiota! Não liberar a maconha é burrice.
- Pergunto-me de vez em quando… e se um filho meu resolve fumar esse tal cigarro que passarinho não fuma? (filho é foda mesmo!) (pai também!) e todo mundo tem suas craterinhas afetivas….
- Ah… meu irmão, confesso: essa porra devia ser liberada mermo. Plantar no quintal de casa igual a erva cidreira.
- Industrializar não! pow! Aí eu discordo. A publicidade era capaz de me fazer um usuário em 2 tempos. Eles são convincentes e fazem tudo parecer tão bonitinhoooo…
- Vocês já viram algum maconheirozinho rico entrevistado em programa do tipo Bareta, sendo achincalhado e chamado de meliante? Claro que não. Maconheiro é só pobre e artista.
- Aliás sei que tem gente jurando aí que eu sou um tremendo cara-de-pau, que fuma e não assume… :D
- Sim, e a tal marcha?
- Eu quero que tenha. Eu vou. Vou porque apoio o movimento. E quero ver não só os que estão lá. Isso é até previsível.
- Bacana vai ser o susto ao perceber as ausências.
- Estou me oferecendo para ir representando os que tem medo de perder a moral em casa, perder o emprego, perder os amigos, perder dinheiro, PERDER VOTOS! Esses últimos são uns sofredores.
- Pois bem, meu caro leitor (não ouso falar no plural ainda… rsrs), apesar das brincadeiras é hora de ter atitude, dizer o que pensa, ouvir outras opiniões – inclusive aturar os preconceituosos e burros.
- Penso nos meus filhos e gostaria de um futuro mais consciente, com cartas na mesa e lidando abertamente com esse assunto.
- Prefiro sem maconha, mas prefiro dizer meu não olhando no olho.
- Educação, informação é tudo
- Discriminalização ainda que tardia!

Pode até parecer um título de tese de graduação, mas tenho pouco a dizer por hora sobre o assunto, deixando para desenvolver, se houver necessidade, adiante.
Falo da contratação de artistas de nome nacional para eventos pagos com o dinheiro público.
Acontece que, sem a atitude de estabelecer caminhos diferentes, permaneceremos no que já se faz a muito tempo por todos os lugares: o grande artista cumpre seu papel e nos brinda com um – quase sempre – grande show, cata seu – quase sempre – grande cachê e vai-se deixando-nos despencar no abismo técnico em que vivemos.
Sempre disse que Sergipe é uma ilha. A teia produtiva – como chamo – que se relaciona e dá suporte ao mercado da música em nosso estado ainda não amarrou os nós necessários para podermos dizer que produzimos tão bem quanto outros centros do país. Já existem inúmeros profissionais de boa qualidade e, principalmente, com grande interesse em crescer e ampliar o seu universo de informações e tecnologias para atuar na área. Cursos de graduação, cursos técnicos, workshops, pesquisas independentes, estão acontecendo por aí. E o Estado pode interferir positivamente nisto? Pode.
Quem paga aos músicos e técnicos dos grandes shows? O dinheiro é nosso, é dinheiro sergipano que está saindo, quando muita informação poderia estar ficando conosco – para valer mais ainda o dinheiro pago.
(Falei que não iria me alongar.)
Não vejo porquê para o Estado não incluir nos contratos fechados com os grandes artistas e bandas cláusulas contratuais que prevejam a realização de Palestras, mini-cursos, oficinas, mesas redondas, com artistas e técnicos, oferecendo a oportunidade da comunidade da música de sergipe troque informações e cresça profissionalmente no que faz.
Estou certo disto. É uma mudança que pede um pouco de ousadia, mas que os resultados são promissores.
Aí vem o Forró Caju, aí vem o Reveillon, Carnaval, Projeto Verão, aniversário da cidade e inúmeras datas e eventos com grandes shows. Quem sabe teremos a oportunidade de inscrições abertas para debates, palestras, workshops sobre instrumentos, composição, iluminação, sonorização, cenário, assessoria de imprensa, coreografia, enfim, uma enorme gama de profissões.
E outra – pra terminar: não pensem que bons profissionais estão em áreas restritas da música, não.  O Forró elétrico, o axé e outras baboseiras musicais contam muitas vezes com excelentes músicos e técnicos que podem trazer boas informações. É bom separar bem as coisas.