Adivinhe uma coisa que adoro! Começa com a letra B, lá pelo meio tem um C e termina com TA. Assim bem cantou o Trio Nordestino há décadas atrás, reconhecendo na BICICLETA uma deliciosa forma de se ter prazer e atividade física.
Minha jega. Foi assim que aprendi a chamar o que hoje estrangeirou-se em nosso falar como bike. Talvez abreviando o esforço para se pronunciar bicicleta, talvez a velha mania – hoje em franca decadência – de negar a própria língua, o fato é que o dissílabo gringo hoje ainda predomina.
Aprendi criança a andar de jega, aquela que trouxe ao meu universo a existência do prazer de subir e descer ladeiras e calçadas, a dor de cair e me levantar. Outras jegas, àquela época, em um outro âmbito, costumavam apresentar aos molecotes recém-chegados à adolescência o mundo mágico do prazer carnal, barrancos a fora.
A minha primeira foi com uma barra-circular Monark – é a nova! - tão grande que não me deixava alcançar o chão. O contorcionismo mental do nosso povo – também conhecido como criatividade ou armengagem – nos empurrava para um outro contorcionismo: a hilária manobra física quase circense de enfiar uma perna por dentro do característico círculo situado no centro do quadro da bicicleta para alcancar o pedal, que ficava numa desconfortável posição quase à altura do nosso quadril. Isso, aliado à necessária empunhadura do guidão, nos fazia imprimir uma curva lateral de quase noventa graus na espinha. E tome pedal. Compararia tal tronxura a tentar dirigir com os pés trocados: esquerdo no acelerador, direito na embreagem – não tentem, como eu, esta manobra! Quase bato o carro.
Digo mais sobre pedalar daquela forma: um estudo cuidadoso por parte de ortopedistas, hoje constataria que a saudosa barra-circular Monark foi responsável por boa parte das escolioses, que ora habitam colunas de quarentões. Mas era lindo!
Hoje pedalando numa Vicini ultra-leve, mal me lembro daqueles monolitos metálicos de duas rodas, com catraca 22, aros e raios devidamente oxidáveis, bagageiro com prendedor, paralamas, às vezes com lanterna, buzina e outros enfeites sem a mínima função útil. Sem esquecer da capa do selim, ou melhor, sela mesmo, enorme, com invariavelmente um escudo de time e umas franjinhas emoldurando seu contorno. Ah, quantos detalhes poderia citar ainda…
Mas é isto. Relembrar uma história tão bonita quanto à evolução deste saudável brinquedo, que também é meio de transporte, passando pela lendária e cobiçada Caloi 10, me faz ponderar a respeito da importância da bicicleta na nossa vida.
Pedalo! Pedalo bastante. Quando ultrapasso filas e filas de nervosos e bélicos motoristas, engarrafados na própria pressa e irracionalidade dos nossos dias, me pergunto: o que eles estão fazendo ali dentro daquela gaiola? Perdendo paz e saúde.
Sabe quanto pago na revisão do meu carro? Em torno de R$ 300,00 em média. Da minha jega: R$ 20,00 – uma pequena diferença, não é? E quando resolvo trocar de carro então! Aí é que o dinheiro some demais da conta. Não é à toa que troquei de carro a última fazem 7 anos.
Tomar sol, chuva, banho de poça, por coração, pulmão, circulação, líquidos corporais para se renovarem, ganhar saúde, vitalidade, andando a 30, 40, 50 km/h… isso é exclusivo dos ciclistas. E a nossa máxima é lei universal: pedalar não é pra quem pode. É pra quem quer.
Para deixar tudo mais tinindo, moramos em Aracaju, cidade com extrema vocação para abrigar ciclistas de todas as modalidades.
Justiça seja feita, a prefeitura tem investido na segurança dos usuários desse meio de transporte, embora muito mais possa ser feito.
Deixo aqui ademais uma coceira pra o juízo de deputados e vereadores: já está na hora de uma desoneração fiscal para os comerciantes e prestadores de serviços do ramo das bicicletas, barateando-as, coisa que seria um grande incentivo para cada dia mais a população optar por esta coisa gostosa que começa com B, lá pelo meio tem um C e termina com TA.
