Arquivo de junho, 2008

Coisinha boa

Por: Henrique Teles    |    30 de junho de 2008

Adivinhe uma coisa que adoro! Começa com a letra B, lá pelo meio tem um C e termina com TA. Assim bem cantou o Trio Nordestino há décadas atrás, reconhecendo na BICICLETA uma deliciosa forma de se ter prazer e atividade física.

Minha jega. Foi assim que aprendi a chamar o que hoje estrangeirou-se em nosso falar como bike. Talvez abreviando o esforço para se pronunciar bicicleta, talvez a velha mania – hoje em franca decadência – de negar a própria língua, o fato é que o dissílabo gringo hoje ainda predomina.

Aprendi criança a andar de jega, aquela que trouxe ao meu universo a existência do prazer de subir e descer ladeiras e calçadas, a dor de cair e me levantar. Outras jegas, àquela época, em um outro âmbito, costumavam apresentar aos molecotes recém-chegados à adolescência o mundo mágico do prazer carnal, barrancos a fora.

A minha primeira foi com uma barra-circular Monark – é a nova! -  tão grande que não me deixava alcançar o chão. O contorcionismo mental do nosso povo – também conhecido como criatividade ou armengagem – nos empurrava para um outro contorcionismo: a hilária manobra física quase circense de enfiar uma perna por dentro do característico círculo situado no centro do quadro da bicicleta para alcancar o pedal, que ficava numa desconfortável posição quase à altura do nosso quadril. Isso, aliado à necessária empunhadura do guidão, nos fazia imprimir uma curva lateral de quase noventa graus na espinha. E tome pedal. Compararia tal tronxura a tentar dirigir com os pés trocados: esquerdo no acelerador, direito na embreagem – não tentem, como eu, esta manobra! Quase bato o carro.

Digo mais sobre pedalar daquela forma: um estudo cuidadoso por parte de ortopedistas, hoje constataria que a saudosa barra-circular Monark foi responsável por boa parte das escolioses, que ora habitam colunas de quarentões. Mas era lindo!

Hoje pedalando numa Vicini ultra-leve, mal me lembro daqueles monolitos metálicos de duas rodas, com catraca 22, aros e raios devidamente oxidáveis, bagageiro com prendedor, paralamas, às vezes com lanterna, buzina e outros enfeites sem a mínima função útil. Sem esquecer da capa do selim, ou melhor, sela mesmo, enorme, com invariavelmente um escudo de time e umas franjinhas emoldurando seu contorno. Ah, quantos detalhes poderia citar ainda…

Mas é isto. Relembrar uma história tão bonita quanto à evolução deste saudável brinquedo, que também é meio de transporte, passando pela lendária e cobiçada Caloi 10, me faz ponderar a respeito da importância da bicicleta na nossa vida.

Pedalo! Pedalo bastante. Quando ultrapasso filas e filas de nervosos e bélicos motoristas, engarrafados na própria pressa e irracionalidade dos nossos dias, me pergunto: o que eles estão fazendo ali dentro daquela gaiola? Perdendo paz e saúde.

Sabe quanto pago na revisão do meu carro? Em torno de R$ 300,00 em média. Da minha jega: R$ 20,00 – uma pequena diferença, não é? E quando resolvo trocar de carro então! Aí é que o dinheiro some demais da conta. Não é à toa que troquei de carro a última fazem 7 anos.

Tomar sol, chuva, banho de poça, por coração, pulmão, circulação, líquidos corporais para se renovarem, ganhar saúde, vitalidade, andando a 30, 40, 50 km/h… isso é exclusivo dos ciclistas. E a nossa máxima é lei universal: pedalar não é pra quem pode. É pra quem quer.

Para deixar tudo mais tinindo, moramos em Aracaju, cidade com extrema vocação para abrigar ciclistas de todas as modalidades.

Justiça seja feita, a prefeitura tem investido na segurança dos usuários desse meio de transporte, embora muito mais possa ser feito.

Deixo aqui ademais uma coceira pra o juízo de deputados e vereadores: já está na hora de uma desoneração fiscal para os comerciantes e prestadores de serviços do ramo das bicicletas, barateando-as, coisa que seria um grande incentivo para cada dia mais a população optar por esta coisa gostosa que começa com B, lá pelo meio tem um C e termina com TA.

Notas minhas (3)

Por: Henrique Teles    |    25 de junho de 2008

Uma pequena parte das mulheres não é fiel. Raros de nós, sim.

Uma trave no próprio olho

Por: Henrique Teles    |    25 de junho de 2008

É apenas uma singela manifestação de trinta e poucas pessoas. 

Três dúzias de cidadãos, admiradores da Praia de Aruana, turistas, adultos, adolescentes, crianças, apreciadores de uma cerveja com petiscos ao entardecer, jogadores de frescobol, pais de famílias, surfistas. Estes últimos, acostumados a compartilhar as boas marolas, os bons momentos com os “broder”, dentro ou fora d’água, simplesmente alinharam suas pranchas, dispondo-as no melhor arranjo que pudesse expressar o desconforto de não ser visto por quem deveria enxergar muito bem. SOS. Um pedido de socorro, um pedido de atenção, um pedido de respeito. 

A comunidade não foi consultada. A voz destas trinta e poucas pessoas, talvez seja uma leve reverberação da vontade de milhares, que ainda tomam susto ao perceber o sumiço dado a vários bares/barracas que lhe serviam semanalmente. E quem haveria de negar tratar-se de interesse comum? De uma coletividade? Uma comunidade de – avaliamos – cerca de três mil pessoas que semanalmente se dirige à Aruana em busca do bem público mais querido de todos os bens públicos, a praia. 

O Ministério Público tem razão. A lei tem razão. Aquilo tudo é bem da União, não de particulares. Isto é de uma clareza solar. O meu, o seu, o interesse deste ou daquele não pode sobrepujar a lei, que nasce para regular e garantir o interesse comum. Mas, esses milhares de frequentadores não denotariam um interesse comum? 

Pois bem. Às vésperas de se decidir o futuro dos últimos bares de pé naquele pequeno e acolhedor pedaço da princesa da qualidade de vida, nós, os trinta e poucos, ousamos falar por três mil, ou quem sabe bem mais que isso, na esperança de que a comunidade, o interesse comum, seja visto nesta e noutras tantas oportunidades, como um algo que está acima de qualquer interpretação estanque das normas; ou decisão solitária de um magistrado ou colegiado; acima da vontade pessoal de uma autoridade; acima dos medeixes das relações entres os poderes em qualquer âmbito, municipal, estadual ou da União. 

Sustentamos que a comunidade não falou porque não foi perguntada. Sustentamos que a ponderação, o bom-senso e o respeito a ela foi esquecido. Sustentamos que nenhum bar deveria ser destruído, sem que houvesse um projeto elaborado e executado, dando-nos a todos – usuários e trabalhadores da praia de Aruana – novas opções de acomodação. 

Pedimos, enfim, para sermos vistos, antes que se veja pequenos argueiros nas vistas dos outros. 

Nós, os trinta e poucos da Praia de Aruana, em nome de uma comunidade. 

Notas Minhas (2)

Por: Henrique Teles    |    19 de junho de 2008

Religião: Invenção do homem pra ligar a criatura ao Criador através de uma gambiarra.

Coceiras no Juízo (5)

Por: Henrique Teles    |    19 de junho de 2008

Vejam só o sadismo: vocês têm à disposição uma programação de nível internacional no Forró Caju, pra assistir show até umas horas da madruga, mas trate de acordar cedo e bem disposto para trabalhar amanhã, tá?!
Noutros lugares o cotidiano da cidade se adapta ao próprio calendário de eventos. Por que não podemos assim fazer também?!
Bem tem gente que discorda, não é Elminha?!

Coceiras no Juízo (4)

Por: Henrique Teles    |    16 de junho de 2008

Juízo em carne viva. Alguém me ajude aí a fincar as unhas nesse comichão!
Por que a Maria Scombona não entra na programação do Forró Caju?!
- “Porque não é forró!” não é resposta. Basta ver a programação.
Por favor, respostas impensáveis, porque todas as imagináveis já passaram pela nossa cachola.

Notas Minhas(1)

Por: Henrique Teles    |    8 de junho de 2008

Arte é pra quem sabe ler

Coceiras no Juízo (3)

Por: Henrique Teles    |    8 de junho de 2008

Agora, um simples e despretensioso cd demo foi senvergonhamente (es)colhido, mastigado, deglutido, regurgitado, redeglutido, digerido e defecado nas páginas de um semanário. Teria Vina Torto recebido a devida retaliação?! Ou será que podemos contar finalmente com alguém pra encontrar agulha no palheiro ou os pés da cobra? Estariam exemplares da badalada banda de Vina em promoção nos grandes magazines? Ou trata-se de um projeto terapêutico/preventivo para aniquilar pela raiz essa nova profissão de crítico de crítico? Dúvidas, dúvidas, dúvidas, dúvidas…

O Artista e o Boneco

Por: Henrique Teles    |    1 de junho de 2008

O artista, zeloso sonhador, enfurnado no porão de casa, na pressa de mudar o mundo e dar um jeito na história, colocando seu nome no cume da glória, debruçou-se a faca sobre madeira, cortiça, tecido e linhas. Num torpor ofegante e pegajoso, regado a volteios e risos, enovelou-se em si e serviu-se de tudo que a vida até então lhe dera. Gula.

Concebeu. Numa gestação tão impetuosa quanto descuidada, já vivia e gozava do esplendor do rebento antes mesmo do parto, que despejou à luz um inquilino extemporâneo por força de tanta ânsia do artista. Um boneco prematuro, mas não mal-formado. A escuridão dos aposentos mais inferiores do artista não o permitiram antever aquela beleza. Era tudo que o mestre precisava: a plástica que calaria o mundo, devolvendo a si o que parecia ter-lhe sido surrupiado por outros rivais de profissão: o reconhecimento. Inveja.

Linhas nos dedos das mãos. A marionete estava pronta. Semanas após semanas tudo confirmava a mais ululante obviedade: ali estava a criatura que Deus não ousou fazer. Nem Deus pensara em tamanha sublimidade, e nem Deus ousaria obstá-lo – o artista – no ofício da sua arte com o seu boneco: salvar o mundo da alheia mediocridade. Vaidade. 

Os olhos do pequeno falavam. Seus movimentos precisos e expressivos, a todos alcançavam, num laço hipnótico. Gestos expressivos, palavras, idéias, frases de efeito, tudo repercutia de forma embriagante e dolorosa. Piadas, analogias, assertivas, histórias da carochinha, disparates. O boneco aspergia sua névoa ácida e jocosa sobre a platéia, pondo a todos em urticante sensação de vulnerabilidade e desconforto. E ao seu artista/criador, êxtase. Os dois se entendiam de tal maneira, em tamanha intimidade, que já não se sabia quem comandava quem. Luxúria.

E lá estava a multidão sôfrega e ainda ávida pelas performances daquela marionete falante. Quiçá um simples olhar, um sorriso, um gracejo, uma palavra amena. Quiçá ser o escolhido para receber o afago, que nunca vinha. E nunca viria. Parecia que a dupla fazia criteriosa reserva para si e para seus pares do espelho de todas as ternuras pensáveis. Avareza

À sombra do poder da audiência que lhes fora outorgada pelos próprios miseráveis, encenando o mesmíssimo espetáculo, o artista e o boneco perseguiram e ainda perseguem a glória. E perseguirão. Em vão. O caminhante faz o próprio caminho, e, num desses trancos da vida, o artista – que já nem sei quem dos dois – patinará nas próprias fezes. Deixemo-os no conforto da sombra e do pouco fazer. Fazer o bem dá mais trabalho. Preguiça.

Aquietei-me, portanto. Como parte da fiel platéia, acostumei-me à dor que nos traz a tal representação. E jamais citarei seus nomes, jamais direi quem realmente são, quão tola tem sido essa peça mal encenada. Penso, enfim, em mim e nos meus, afinal um outro sentimento vil ainda poderia estar por vir.

Somos sapos?

Por: Henrique Teles    |    1 de junho de 2008

Professor Maurício. Nunca mais tive notícias deste cabra, mas esta semana fui abduzido do presente e levado a uma certa aula que se dava em qualquer canto. É, qualquer espaço no campus da UFS, ou não, poderia virar uma sala de aula.
Mas, por que me lembrei de Mau-mau – como era carinhosamente chamado o inquieto professor?!
Certa feita ele leu pra nós um poema, que toda a galáxia jurava ser de autoria de Maiakovski, mas que na realidade está se descobrindo que é de um brasileiro, Eduardo Alves da Costa:

“… Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem:/ pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um dia,/ o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz e,/ conhecendo nosso medo,/ arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada.”

Quando assisti muda, solitária e resignadamente à derrubada dos bares de Aruana, sem emitir sequer um gemido, não pude resistir e me deixei levar àqueles dias de graduação em Educação Física, quando boa parte da condensação do que sou se deu.

Da UFS, fui imediatamente levado à minha pouquidade: Somos sapos?

Esta pergunta, que sempre ouvi, desde a infância lá pra as bandas de Riachão do Dantas, resume todo o contido no poema: “Você é sapo, menino? Sapo é quem morre calado embaixo do pé do boi.” Quantas vezes ouvi isto! A sabedoria popular é foda!

Pois não é que milhares de usuários dos bares da Aruana, dezenas de trabalhadores que dali tiravam seu sustento e de sua família, ninguém fez nada até agora!? Nenhum grito, nenhuma manifestação, nada!
Estou no aguardo, estou cobrando isto de quem de alguma forma acredita que as coisas não devem ser feitas desta forma. A comunidade não foi ouvida. A imprensa até agora está assistindo com destreza essa demonstração de que a lei poderia ser maior que o interesse comum. O poder executivo não exerceu sua prerrogativa política de ouvir os que estão calados, mas teriam algo a dizer se fossem perguntados. Entendam, fomos educados assim, a calar até diante de torturas e assassinatos. Avalie por uma barraquinha de praia.

Ainda dá tempo! Continuarei chamando as pessoas a se manifestarem.

Não somos sapos!