O Artista e o Boneco

Por: Henrique Teles    |    1 de junho de 2008

O artista, zeloso sonhador, enfurnado no porão de casa, na pressa de mudar o mundo e dar um jeito na história, colocando seu nome no cume da glória, debruçou-se a faca sobre madeira, cortiça, tecido e linhas. Num torpor ofegante e pegajoso, regado a volteios e risos, enovelou-se em si e serviu-se de tudo que a vida até então lhe dera. Gula.

Concebeu. Numa gestação tão impetuosa quanto descuidada, já vivia e gozava do esplendor do rebento antes mesmo do parto, que despejou à luz um inquilino extemporâneo por força de tanta ânsia do artista. Um boneco prematuro, mas não mal-formado. A escuridão dos aposentos mais inferiores do artista não o permitiram antever aquela beleza. Era tudo que o mestre precisava: a plástica que calaria o mundo, devolvendo a si o que parecia ter-lhe sido surrupiado por outros rivais de profissão: o reconhecimento. Inveja.

Linhas nos dedos das mãos. A marionete estava pronta. Semanas após semanas tudo confirmava a mais ululante obviedade: ali estava a criatura que Deus não ousou fazer. Nem Deus pensara em tamanha sublimidade, e nem Deus ousaria obstá-lo – o artista – no ofício da sua arte com o seu boneco: salvar o mundo da alheia mediocridade. Vaidade. 

Os olhos do pequeno falavam. Seus movimentos precisos e expressivos, a todos alcançavam, num laço hipnótico. Gestos expressivos, palavras, idéias, frases de efeito, tudo repercutia de forma embriagante e dolorosa. Piadas, analogias, assertivas, histórias da carochinha, disparates. O boneco aspergia sua névoa ácida e jocosa sobre a platéia, pondo a todos em urticante sensação de vulnerabilidade e desconforto. E ao seu artista/criador, êxtase. Os dois se entendiam de tal maneira, em tamanha intimidade, que já não se sabia quem comandava quem. Luxúria.

E lá estava a multidão sôfrega e ainda ávida pelas performances daquela marionete falante. Quiçá um simples olhar, um sorriso, um gracejo, uma palavra amena. Quiçá ser o escolhido para receber o afago, que nunca vinha. E nunca viria. Parecia que a dupla fazia criteriosa reserva para si e para seus pares do espelho de todas as ternuras pensáveis. Avareza

À sombra do poder da audiência que lhes fora outorgada pelos próprios miseráveis, encenando o mesmíssimo espetáculo, o artista e o boneco perseguiram e ainda perseguem a glória. E perseguirão. Em vão. O caminhante faz o próprio caminho, e, num desses trancos da vida, o artista – que já nem sei quem dos dois – patinará nas próprias fezes. Deixemo-os no conforto da sombra e do pouco fazer. Fazer o bem dá mais trabalho. Preguiça.

Aquietei-me, portanto. Como parte da fiel platéia, acostumei-me à dor que nos traz a tal representação. E jamais citarei seus nomes, jamais direi quem realmente são, quão tola tem sido essa peça mal encenada. Penso, enfim, em mim e nos meus, afinal um outro sentimento vil ainda poderia estar por vir.


2 Comentarios em “O Artista e o Boneco”

  1. Rafael Jr.

    Rapaz, é o texto definitivo, nada mais a declarar. Entendi tudo, sei quem são. Abraço e parabéns.

  2. Versianni

    Vixe… Foi de lascar, viu? Inspiradíssimo!
    Henrique, pra tu um Viva! e um Salve!

    Só resta imaginar: De quantos outros pecados padeceremos ainda nessa nossa “capital”?

Deixe seu comentário