Professor Maurício. Nunca mais tive notícias deste cabra, mas esta semana fui abduzido do presente e levado a uma certa aula que se dava em qualquer canto. É, qualquer espaço no campus da UFS, ou não, poderia virar uma sala de aula.
Mas, por que me lembrei de Mau-mau – como era carinhosamente chamado o inquieto professor?!
Certa feita ele leu pra nós um poema, que toda a galáxia jurava ser de autoria de Maiakovski, mas que na realidade está se descobrindo que é de um brasileiro, Eduardo Alves da Costa:
“… Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem:/ pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um dia,/ o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz e,/ conhecendo nosso medo,/ arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada.”
Quando assisti muda, solitária e resignadamente à derrubada dos bares de Aruana, sem emitir sequer um gemido, não pude resistir e me deixei levar àqueles dias de graduação em Educação Física, quando boa parte da condensação do que sou se deu.
Da UFS, fui imediatamente levado à minha pouquidade: Somos sapos?
Esta pergunta, que sempre ouvi, desde a infância lá pra as bandas de Riachão do Dantas, resume todo o contido no poema: “Você é sapo, menino? Sapo é quem morre calado embaixo do pé do boi.” Quantas vezes ouvi isto! A sabedoria popular é foda!
Pois não é que milhares de usuários dos bares da Aruana, dezenas de trabalhadores que dali tiravam seu sustento e de sua família, ninguém fez nada até agora!? Nenhum grito, nenhuma manifestação, nada!
Estou no aguardo, estou cobrando isto de quem de alguma forma acredita que as coisas não devem ser feitas desta forma. A comunidade não foi ouvida. A imprensa até agora está assistindo com destreza essa demonstração de que a lei poderia ser maior que o interesse comum. O poder executivo não exerceu sua prerrogativa política de ouvir os que estão calados, mas teriam algo a dizer se fossem perguntados. Entendam, fomos educados assim, a calar até diante de torturas e assassinatos. Avalie por uma barraquinha de praia.
Ainda dá tempo! Continuarei chamando as pessoas a se manifestarem.
Não somos sapos!
23 de junho de 2008 às 11:44 am
Salve salve Henrique!!!
Bicho, de um lado a natureza derruba e do outro o MP ajuda. Homem querendo imitar a Natureza através de mandatos judiciais.
Jean Beaudrillard, filósofo francês catapultado à esfera pop depois que um livro seu (’Simulacro e Simulação’) foi referência p/ o filme ‘Matrix’, no livro “A troca impossível” fala do que vemos e, na maioria das vezes, calamos: o que comanda a Vida humana, empiricamente e não metafórica ou aparentemente são SISTEMAS MENORES (política, economia, moda (?!!!!) que atropelam o SISTEMA MAIOR, que é a própria vida humana.
Além da admiração que tenho pelo trabalho musical de vocês, agora fica registrada também a admiração pelo ativismos social que esse seu texto evoca.
Pode contar com minha presença e apoio em manifestações públicas a essa causa.
GRANDE abraço!!!
do NÃO-SAPO
André Teixeira