Uma trave no próprio olho

Por: Henrique Teles    |    25 de junho de 2008

É apenas uma singela manifestação de trinta e poucas pessoas. 

Três dúzias de cidadãos, admiradores da Praia de Aruana, turistas, adultos, adolescentes, crianças, apreciadores de uma cerveja com petiscos ao entardecer, jogadores de frescobol, pais de famílias, surfistas. Estes últimos, acostumados a compartilhar as boas marolas, os bons momentos com os “broder”, dentro ou fora d’água, simplesmente alinharam suas pranchas, dispondo-as no melhor arranjo que pudesse expressar o desconforto de não ser visto por quem deveria enxergar muito bem. SOS. Um pedido de socorro, um pedido de atenção, um pedido de respeito. 

A comunidade não foi consultada. A voz destas trinta e poucas pessoas, talvez seja uma leve reverberação da vontade de milhares, que ainda tomam susto ao perceber o sumiço dado a vários bares/barracas que lhe serviam semanalmente. E quem haveria de negar tratar-se de interesse comum? De uma coletividade? Uma comunidade de – avaliamos – cerca de três mil pessoas que semanalmente se dirige à Aruana em busca do bem público mais querido de todos os bens públicos, a praia. 

O Ministério Público tem razão. A lei tem razão. Aquilo tudo é bem da União, não de particulares. Isto é de uma clareza solar. O meu, o seu, o interesse deste ou daquele não pode sobrepujar a lei, que nasce para regular e garantir o interesse comum. Mas, esses milhares de frequentadores não denotariam um interesse comum? 

Pois bem. Às vésperas de se decidir o futuro dos últimos bares de pé naquele pequeno e acolhedor pedaço da princesa da qualidade de vida, nós, os trinta e poucos, ousamos falar por três mil, ou quem sabe bem mais que isso, na esperança de que a comunidade, o interesse comum, seja visto nesta e noutras tantas oportunidades, como um algo que está acima de qualquer interpretação estanque das normas; ou decisão solitária de um magistrado ou colegiado; acima da vontade pessoal de uma autoridade; acima dos medeixes das relações entres os poderes em qualquer âmbito, municipal, estadual ou da União. 

Sustentamos que a comunidade não falou porque não foi perguntada. Sustentamos que a ponderação, o bom-senso e o respeito a ela foi esquecido. Sustentamos que nenhum bar deveria ser destruído, sem que houvesse um projeto elaborado e executado, dando-nos a todos – usuários e trabalhadores da praia de Aruana – novas opções de acomodação. 

Pedimos, enfim, para sermos vistos, antes que se veja pequenos argueiros nas vistas dos outros. 

Nós, os trinta e poucos da Praia de Aruana, em nome de uma comunidade. 


Um Comentario em “Uma trave no próprio olho”

  1. kel !

    Sustentemos à todas as manifestações contidas em nós, trinta e poucos e mais uma, em nossas palmas das mãos estendidas por uma causa nobre. Que, de tão nobre (!), cause rebouliço estrondoso à união de costumes, gostos, sentidos e gostos de nós, apreciadores da união popular, de uma união que ergue a cultura de um povo e transforma os únicos, em coletivo e que é tão subitamente desamparada pela União sofisticada de interesses próprios/alheios; sem a intervenção das cores que nós, esses apreciadores da plenitude da “princesa da qualidade de vida”, cultivamos em seu redor. Mãos ao alto, mas cuidado!! Talvez a União tenha (podres) poderes no ar em que a sua palma palpita nesse dado momento…..

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