Gabriela Lauria e o drible do elástico

Por: Henrique Teles    |    4 de agosto de 2008

Nunca, nunca me esquecerei do drible do elástico tomado por Amaral – líbero do Corinthians – aplicado por Romário, o baixinho – o maior de todos os tempos dentro da grande área. Para completar a míseria, totalmente sem ângulo, o 11 do Mengão fechou o lance com um toque totalmente sem ângulo para o fundo das redes. Pintura! Depois disto, o supracitado e infeliz adversário foi visto por diversas vezes, em inúmeras clínicas ortopédicas, em tratamento de uma lordosifoescoliose adquirida, que jamais foi curada.
Estou assim também. Não física, e sim moralmente, estou entrevado por completo.
- Henrique, queria alguém que viesse dos Estados Unidos pra trazer um discman pra mim!
Eu, serelepe, cheio de prosa, soltei a sugesta: eheheheh… discman?!?!?!? kkkkkk… vc tá ultrapassada! Com 16 anos e já perdeu o bonde?
Neste exato momento – imagine o movimento em câmera lenta – minha cabeça, meu tronco, depois pernas, braços e tudo mais, arremessam-se na mesma direção em que segue a bola grudada no pé do craque e que, nos próximos milésimos de segundos já virá na contramão, inalcançável, acompanhada apenas pelo meu mais amarelo e desconcertado olhar…
A mocinha respondeu:
- Assim… é que eu não gosto de MP3, sabe?! Gosto de ouvir cd, ler o encarte, ver a capa, a arte, quem compôs as músicas, os músicos, quem trabalhou e fez o álbum… Daí eu curto meus cds. Gosto de ter cds. Mp3 é só música…
Dezesseis anos… putsss… já eram mais de nove da noite, já era escuro, já dava para eu estar na cama – podia mesmo ter ido dormir sem esta.
Ainda bem que não. Passei felizmente essa vergonha. Assim como o goleiro Ricardo Pinto, que em 1989, após ter tomado um 5 X 0 na despedida do Galinho, reconheceu: “Sinto-me honrado em ter levado o último gol de Zico.”, assumo: fiquei orgulhoso de ouvir de Gabi Lauria, da forma mais despretensiosa e honesta possível, a confissão de ser “antiquada” e querer o velho diskman, para extrapolar os tradicionais holofotes apontados para os músicos (especialmente os vocalistas) e descobrir que mais gente ajuda a fazer um álbum.
Parabens, garota. Agradeço no melhor estilo fair play, esse vexame que passei.
Agradeço, especialmente, em nome dos compositores. Esses anônimos criadores de grandes lanças, que cutucam nossos corações com belas palavras e melodias, e que são tão pouco citados na execução de suas músicas por todos os lugares.
Obrigado Lauria; viva a criação!

PS: Depois da cobra morta…

Gol de Romário: http://br.youtube.com/watch?v=ek2cZ1fa6io&feature=related

Gol de Zico: http://br.youtube.com/watch?v=cAvc5OUSTs4


7 Comentarios em “Gabriela Lauria e o drible do elástico”

  1. Rafael Jr.

    Rapaz, essa menina legal de 16 anos existe mesmo?
    Porque eu fico o tempo todo me esforçando pra me atualizar, meus alunos de bateria já levam os play-alongs prontos em mp3 player e eu não preciso mais emprestar meus cds pra eles copiarem, é só dizer o artista e a músia e eles baixam rapidinho… Na faculdade as apostilas estão numa página disponíveis e são passadas via pen-drive na sala, quem leva eu laptop pessoal já pluga lá o cabinho e tá tudo certo. Quando vou num show de rock e converso com a molecada sobre novos (e velhos) sons é bom estar com o mp4 da minha esposa que dali mesmo já levo pra casa a sonzeira… Mas eles não sabem nada de datas, como é a capa, quem gravou, como é a cara da banda, nunca mudaram o lado de um vinil (claro, eu é que sou o véio) e muitos nem folhearam um encarte de cd na vida, eu fico meio de olho arregalado e sem entender como pode haver uma relação tão fria com a música (arquivos), agora é como uma trilha sonora enquanto eles fazem coisas na frente da máquina. E mais da metade das músicas que baixam nunca serão ouvidas ou o serão superficialmente…
    Eu me esforço e tenho aqui meus arquivos, mas o apego aos discos físicos existe porque eu não posso simplesmente ignorar a MINHA história pessoal e relação com a música em detrimento dos novos tempos. Minha parada passa por rituais como trocar o lado do disco e ler um encarte pra saber quem produziu o album e quem gravou cada instrumento de cada uma das faixas, além de cantar junto uma música, lendo a letra. E perceber a evolução musical de uma banda através da sua discografia, essas coisas.
    Que Deus abençoe essa menina e a minha velhice!

  2. Rafael Jr.

    Ah, eu ainda espero alguém imprimir a apostila pra ir tirar xerox!!!
    Ai, que vergonha! hehehehehe

  3. Lourdes Lauria

    Essa menina existe e como diz nosso amigo Henrique, é uma figura!
    Henrique, valeu pelo apoio e incentivo. Quem sabe um dia ela não fará parte desse valioso trabalho artístico? rsrsrs… E que Deus conserve sempre seu talento e sua sensibilidade……

  4. Henrique Teles

    kkkkkkkkkkkk…. momentos de confissões! Eu também tenho meus rituais, embora esteja sem local para minhas velhas audições. Logo logo, resolvo isto.
    Quanto à garota, ela existe sim, e espero que não seja exclusividade a sua atitude.
    Entre o álbum e o mp3, sou mais o álbum tb. Um existe materialmente, outro é completamente volátil.

  5. Rafael Jr.

    Pode não ser uma atitude exclusiva, mas é rara. Disso pode ter certeza porque convivo com jovens o tempo todo e gosto de conversar sobre essas coisas e perguntar especificamente sobre isso que estamos debatendo…
    Tô precisando é de um toca-discos e receiver decentes pra voltar a ouvir meus vinis, que estão encostados!!!
    E o lance da xerox eu justifico com o fato de que eu fui “zineiro” das antigas… hehehehe

  6. Everton

    Putz… é a realidade da evolução tecnológica. Pra se ter uma idéia, agora que eu comprei um iPod, e nele eu posso colocar as capas dos álbuns, que eu vi pela primeira vez as capas das bandas que ouço há mais de 6 ou 10 anos. E aí dá pra colocar as informações do álbum também. Então é só readaptar a tecnologia, que os créditos não serão desmerecidos.

    Além disso, já tem banda lançando álbum virtual e que, no caso do iPod, você baixa todas as informações de vez: arquivos de música, com compositores, intérpretes e o resto das informações técnicas.

    Mas nada substitui folhear o encarte do cd, tomando aquele cuidado especial em colocá-lo de volta na capa do CD sem amassá-lo. :)

  7. Kel (Passos)!

    Gabi é inusitada..desde pequenina; qdo brincávamos de brigar na varanda da casa dela. Esqueci que Lourdes me disse que te conhecia..=)
    Que massa!
    Essa Gabi dá um orgulho master mesmo…fia da péé.

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