A casca do caroço

Por: Henrique Teles    |    15 de maio de 2009

Outro dia, rememorando nossa produção musical, especialmente no que se refere aos temas e letras, fiquei me perguntando se pra ser compositor sergipano, artista sergipano, é preciso referir-se tanto, e às vezes de forma tão gosmenta, às mesmas coisas de sempre… vocês sabem, né? Caju, arara… arara, caju… Atalaia… caju… arara… caranguejo… atalaia… caju… sertão… ops… sertão?!
Para ser artista sergipano tem que falar do sertão, meu sertão, meu sertão, meu sertão? “Que só conheço de longe, porque lá nunca fui não, meu irmãããããão!!!!!!”
Como a gente consegue GASTAR a beleza das coisas! Temos preguiça de olhar para outras coisas ou, simplesmente, olhar as mesmas coisas de outras formas!!! Aí volta a mesma cantiga…
Vem aí uma nova e promissora geração de artistas aracatengas*, moçada. Esqueçam viu! No dia que o artista ganha o mundo, sua cidadania extrapola as fronteiras do rincão. Não tem jeito. Acostumado a escrever e a cantar o que lhe cerca, seus limites, desde já, já não serão a casca daquela semente onde estava contido; sua tribo torna-se mais vasta a cada pernoite, a cada paradeiro. E aí?
Aí você já não cobra do Alagoano Djavan falar somente da lagoa do Mundaú; nem da Campinagrandense, Elba Ramalho, xaxar 24 horas por dia; nem do baiano, Gilberto Gil, dar pernada ao som de din-din-don; nem de Acione, cantar o boi do Maranhão o tempo inteiro. Esses sujeitos passaram a ser cidadãos brasileiros, senão do mundo. E agora já falam e cantam outras coisas – também. É o caminho.
Por isto, acho bom exercitar os sentidos em busca de outras sergipanidades mais sutis – e não menos vigorosas e verdadeiras – e ver que isto tudo está conectado com o mundo fora do nosso grão, que nos atrai e pede que isto se expanda.
Agora, coisa minha, da qual eu não abriria mão, seria meu sotaque. Isto não. Este sim é o corpo etéreo da minha identidade. Estará no ar e remeterá qualquer ouvinte às minhas origens, a saber de onde venho e qual seria e será a história desse povo que me pôs no mundo assim. E isso é bonito.

* Os Aracatengas = Os aracajuanos, p. ext. os sergipanos. Termo muito usado na comunidade do longboard, quando nos referirmos a nós mesmos. Alguém, um dia, falou, e pegou.


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