* inspirado no texto Por um São João de Respeito, de Amorosa, na seção Opinião do Jornal do Dia (01 e 02/05)
Recebi das mãos de meu sogro Adalto o recorte de página com a opinião de Amorosa sobre os gastos públicos com as próximas comemorações juninas.
Articulada, como sempre, esta moça, que me batizou, a contragosto meu, como Henrique Teles, deixa suas idéias muito claras.
Sinceramente, não sei como anda agora, mas sempre foi pública a frágil relação da nossa itabaianense com o grupo político que hoje administra a capital e o estado. Várias foram as suas manifestações abertas, em alto e bom som, para respostas quase sempre silenciosas. E é preciso que eu me refira a isto para não patinar na ingenuidade.
Ressaltada esta situação, entro onde bate a mão do pilão.
A escolha das atrações e o preço dos cachês: é um julgamento difícil de ser feito. Cada artista, por incontáveis motivos, tem sua valoração no mercado e o que resta ao Estado é pagar ou não pagar. A idéia é somente economizar, não importa a presença do público? E se deixa de trazer artistas aclamados pelo talento, ou simplesmente que estão na mídia, o povo comparece? Não estaria o público em busca dos grandes artistas mesmo? Dos grandes trabalhos? E se fazemos a festa somente com artistas locais, vai funcionar? Ou a gente vai tocar pra aqueles quatro bebinhos de novo? Reconheço que aqueles, sim, são fiéis – a qualquer coisa.
Bem, vou logo dando minha opinião: tem que ter grandes atrações. Mas Amorosa não as descarta. Tudo bem. Concordo com ela nisso. Porém, não precisa restringir os grandes shows a vesperas e dias dos santos. Teria público para o restante dos dias? Dá pra ter um show “médio” ou “grande” cada dia. Ainda sobra dinheiro.
Mas percebam onde quero chegar, porque já falei de outras vezes dessa grandiosidade das festas, que nos joga na grande mídia e alimenta o nossa ego-sergipanidade de uma forma enganosa. Achamos que está tudo lindo, maravilhoso, mas as noites estão repletas de atrações importadas. A festa nos ilude, mas o público continuará lamentando a inexistência de um grande artista nacional exportado diretamente da terra dos “urêa sêca”: Sergipe. Sem cachês para nós de cá, sem grana, não há fomento à revelação de grandes nomes sergipanos. A política de muitos shows importados não só impede que se abram espaços para os trabalhos locais, como também causa uma fuga muito grande da verba para fora do estado. Dinheiro que seria muito importante no financiamento da produção cultural local. Mais dinheiro para produzir novos discos, dvds, alimentar o mercado fonográfico, ter novos e bons álbuns sendo executado nas rádios, mais público nos nossos shows e, do milagre que se faz em casa, fazer-se os santos para trilharem as estradas desse Brasilzão.
Estamos na seara do forró, e aqui eu posso meter meu bedelho. Não falo de forró porque é charmoso ou cult. Falo de forró porque o como com farinha. Ele está na minha mesa tanto quanto o cuscuz e o café com leite. Ouço e danço forró religiosamente. E ouço de todos os credos do forró.
Com muito esforço e, reconheço, um pouco de náusea, tenho que admitir que as bandas de forró elétrico são eficientes. Pegaram a vergonhosa carona, na carona, da carona da primeira bosta que vi tocar, chamada Mastruz com Leite e, roubando direitos autorais ou não, foram competentes em pagar jabá, fazer esquemas e ocupar todos os espaços. Palmas(?) pra elas que gravaram bons(?) discos, ganharam fama(?) e sucesso(?), e hoje tem cachê garantido nas nossas festas.
Mas, como é que eu vou dizer para abrir espaço para os outros artistas locais, se a produção artística aqui é tão incipiente, insípida? Qual é o grande trabalho de forró daqui? Quem gravou um grande disco ultimamente? Bem, nos últimos anos, salvo grave ignorância minha, ninguém. Ouvi boas gravações avulsas de Erivaldo e de Nino Karva cantando coco, mas um álbum delicioso de forró – como foi o Gelo na Farinha, de Mestre Zinho – isso, se existe, está bem escondido.
Aí vem outra pergunta: como pode um lugar com músicos reconhecidamente qualificados, de swing ímpar, só saber copiar o que os outros fazem? E vou mais embaixo: cadê os bons compositores de forró? Bons letristas? Bons arranjadores? Boas idéias, que fujam dessa mania de “chupar” do “sucesso do momento”. Para forró universitário, Falamansa; para forró elétrico, Aviões ou cavaleiros ou calcinha; forró tradicional, Flávio José, Adelmário. Tudo tem que seguir padrões do que vende?
Em algum lugar esse ciclo deve ser quebrado. E tem que ser na postura dos artistas. É cobrando, como bem faz nossa bandeirante Amorosa, mas mudando nossa atitude artística também, apostando mais num modo próprio de ver e fazer música, sem usar fórmulas, apenas deixando fluir, da forma mais espontânea, a sua verdade musical, para em seguida produzir seus álbuns e shows com o melhor nível de produção possível.
Mergulho mais ainda: precisamos de espontaneidade, mas precisamos de conhecimento, informação. Leitura? Certamente que ajuda. Leitura da vida mais do que tudo, leitura das coisas e pessoas e comunidades que nos cercam. Leitura bibliográfica também conta, afinal, transformar o pensamento e o sentimento em palavra, e a palavra em música, passa por uma elaboração quase culinária, com a necessidade de se ter muitas especiarias à disposição. E aí está a nascente de tudo.
A nascente de um grande trabalho artístico, que não precisará de jabás nem esquemas para ser reconhecido, passa pela aposta nos compositores, e estes em apostar na leitura da sua realidade.
Por isto tuuuudo que terminei escrevendo, gente; por isto, querida Amorosa, que apenas a canetada do executivo não resolverá de forma duradoura o problema da falta de espaço do qual reclamamos.
As mudanças para “um São João de respeito” passam também por artistas que se respeitem.
Em tempo: tenho que registrar minha decepção este final de semana com o trabalho de forró de uma grande esperança minha: Cobra-Verde. Uma sanfona maravilhosamente bem tocada acompanhada de um cantor a la Aviões, uma cantora naquele melhor estilo papel carbono e na batera uma xerox sofrível de Riquelme. Dinheiro que joguei fora, mas continuarei acreditando em dias melhores do trabalho de Cobra-Verde.
Preciso dar, entretanto, vários Vivas: Valtinho, ao próprio Cobra-Verde, Erivaldinho, Mestrinho e toda a nova geração de sanfoneiros e músicos do forró aqui em Sergipe. Que cheguem os compositores!
Viva a Casa de Forró Cariri, por onde passa a nata do forró do nordeste, e onde gasto a sola do meu tamanco.
Um Viva especial para João da Passarada, que acompanho e sou fã, desde o tempo do quebra-queixo, do coel e do picolé vitaminado da paulicéia.
8 de maio de 2009 às 10:43 pm
Callinectes Exasperatus d’mode
http://www.infonet.com.br/politica/ler.asp?id=85411&titulo=politicaeeconomia
Não recebo com surpresa o link. Causa conseqüência, a – gestão indigestão. Na comunicação a mudança era previsível, mas não deveria. Se de boas intenções o inferno está cheio, Dante já sabia dos círculos na esquina dos despachos e indigesto, cuspo no prato que comi. Refém por mocidade e ludibriado pelo mote da mudança, acreditei que fazia parte, principalmente como eleitor, de um processo político de transformação em meu Estado, mas estava vendido ao princípio de comunicação que ajudava a instituir. Hoje, mesmo com tão pouco contato, sei que não é com o Governo que devo contar. Prefiro esperar Godot a sonhar com a iniciativa de políticas públicas mais eficazes no âmbito da cultura e da difusão da identidade sergipana. Boas intenções molestadas por distorções de poder egóicas não favorecem em nada o meu mais indefeso ímpeto por fazer cinema. Diante de tamanha decepção encontrei a autonomia. Ela exige dinâmica e soluções práticas. Puxa da inteligência, sacode da cadeira, implica num ser mais inventivo e por isso mais sagaz e fortalecido no que crê. Longe do atalho, tomei o caminho mais longo. No meu caso é quase um tiro no pé pensar em independência. Meu meio de produção artística é de prática cara, mas se na mecânica da política não encontrar incentivo fico grato por não levar essa culpa.
A lei nacional de Fomento e Incentivo à Cultura esta sendo discutida publicamente, parece ser menos corruptível e indica um norte em discussões mais construtivas que no âmbito da dança dos caranguejos, diria siris, na panela a fervilhar.
PS: Estou ansioso para ver a mais nova produção do cinema marginal sergipano (http://www.youtube.com/watch?v=JYac4s2kXUE) dizem que custou R$ 30. Admiro os tempos de crise.
9 de maio de 2009 às 3:31 am
Já dizia o velho poeta Glauber Rocha, que foi visto como louco no fim da vida, que um lugar sem cultura é um lugar sem indústria, sem economia, sem ligação com o passado – é um lugar infértil.
Lendo esse texto do Henrrique me veio essa idéia de infertilidade, nas áreas áridas da cultura sergipana. O orgulho vem a ser uma banda chamada Calcinha Preta, que toca no Faustão, na novela das 8 com o tema das índias – e além de tudo acredita em Deus cristão. Essa é a religião: a dos negócios globais. Quem tem “manhas” entra no esquema da nova indústria cultural – e a fertilidade dela não tem localidade, porque é globalizada, apesar de bilionária.
Mas é um contrasenso, já que o “molde” Calcinha Preta não cultiva nada, a não ser dinheiro para suas famílias. A cultura é algo a se pensar, a se refletir, a se teorizar, a se elaborar, a se construir, a se aprofundar, a se historicizar… a se fazer…
Ninguém da cultura de sergipe tem dúvids. Está mais do que óbvio que essas “mudanças” promovidas pelos sociais democratas recém adotados na política populista, que a secretaria de cultura, comunicação, planejamento – o próprio “discípulo” da persona política de FHC em forma e conteúdo, Marcelo Déda, ainda que esteja no PT -, consigam pensar na cultura como algo maior que a velha economia de português de padaria ou de comerciantes de Itabaiana.
E criticar assim não nos leva à direita não – algo que Amorosa vacila demais ao evidenciar esses seus disparates por João Alves. Se é pra continuar, ou mudar, piorando, então que se EXPLODA tudo nessa PORRA, como já ouvi artista muito bom de Sergipe falar.
abraços amigos!
9 de maio de 2009 às 11:19 am
Oi Henrique!
Tudo bem, querido?
Espero que esse ano o Fórum do Forró se transforme em um espaço de menos loas e mais propostas. Ali deve ser um espaço de debate sobre nossa maneira de fazer a festa. Por que, não? Com todo respeito a Braúlio Tavares, Zé da Flauta mas já está mais que na hora de dar espaço para músicos, produtores, público meterem o bedelho “nessa tal política de todos”.
Ainda acho que as festas em locais onde aglomeram centenas de pessoas não é o melhor formato. Temos que pensar em palcos descentralizados, estimular mais os arraiais de bairro, colocar as quadrilhas para ser melhor vistas. Afinal, quem precisa de milhares de pessoas atochadas num só lugar? Nem dá direito para dançar! Deve ser pra ficar bem na foto da propaganda rss
Quanto a Cobra Verde, estou curiosa para ouvir o primeiro trabalho solo do cabra. Vai ser lançado no Cariri no próximo sábado (dia 16 de maio) , né?
Vamos nos falando…
Cheiro!
11 de maio de 2009 às 9:52 pm
Porra, Lu, que legal. Você tem riscado o terreiro de um lado a outro acompanhando nossa produção de forró. Você bem sabe. E sabe de verdade.
Vejo gente por aí com muito blá-blá-blá sobre forró – alguns dizem até fazer forró – e não sabem cacete algum sobre o que rola de por aqui.
Ora, ora! Como fazer um fórum de forró e não ter discutido até hoje a dança? Putsss… Talvez me alongue depois num post sobre o assunto, inclusive pra saber por que o fórum não acontece durante o Forró-Caju, aproveitando a passagem de tantas estrelas e tanta gente experiente para discutir tantos tópicos interessantes como os que você listou…
Vamos lá!
11 de maio de 2009 às 9:57 pm
Mauro, tem um tópico que também falo desse assunto: http://blog.mariascombona.com.br/2009/05/praga-de-serigy-e-complexo-de-caranguejo/
A praga tá na cabeça!
16 de maio de 2009 às 6:42 pm
Oi, Henrique. Difícil crer nos brados da Amorosa quando se fala em ‘artistas da terra’, ’sergipanidade’, sei da luta que ela trava, mas sei também que ela fala mais do deveria. Alguém que meandra, sabe-se lá como, dos dois lados da moeda política aracajuana para estar sempre em evidência, lançando discos de homenagens para conseguir estar por cima da carne seca e ao mesmo tempo se desprezar enquanto artista (na coluna do Cinform quando disse que nunca ‘gostou’ do que fez até hoje) … isso já é bastante para mostrar de que lado ela está e sendo assim… que força tem uma pessoa como essa pra chamar alguém pra luta? Acredito no seu trabalho. Acompanho desde sempre. É engajado, tem força, expressão, vitalidade e não fica no discurso dos que querem ‘mostrar’ coragem. O trabalho da Maria Scombona tem coragem e de sobra.
16 de maio de 2009 às 9:32 pm
A Maria agradece, cabra.
17 de maio de 2009 às 12:43 pm
[...] Scombona Mais de Um Nós « Por artistas que se respeitem* Criança, a alma do negócio [...]