Não acredito. Simplesmente não acredito. Não tem a mínima chance de ser verdade, embora, verossímil, reconheço, seja.
Parece verdadeiro, primeiro, porque uma tese reforça a outra. Se não, vejamos:
Dizemos nós urbanóides que o Cacique Serigy – como se não tivesse nada de relevante para nos legar – deixou uma praga que rogava para que nada que se fizesse por estes prados desse certo. Segundo alguns teóricos da baixa auto-estima sergipana, essa maldição nos acompanha e nos acompanhará até o fim dos tempos. E não faltarão exemplos de insucessos, onde se busca de tudo. Desde a ausência de um time de futebol na série A – nem na B, pra piorar – à ausência de uma banda que não seja a Calcinha Preta no programa de Faustão – no programa de Faustão?!?!. Nunca tivemos um presidente da república sergipano. No máximo o finado candidato Marronzinho! Não temos as praias de Alagoas – nem da Bahia. “Não tem uma porra de um ator nas novelas da Globo!!!!”. E uma miss Brasil?!?!? Um craque na seleção. Um escritor best-seller. Nenhuma celebridade! Enfim, estamos no cú do mundo… “ó céus, ó vida, ó miséria!”. Ô caciquezinho caceteiro!
Pra piorar, junta-se a esta lenda outra que fala do complexo de caranguejo do povo sergipano. Segundo essa lorota, não bastasse a “comprovada” maldição de Serigy, o sergipano tem a irremediável mania de não permitir que o outro “suba na vida”. Cita-se para solidificar tal afirmação uma analogia na qual os sergipanos são caranguejos dentro de um caldeirão em iminente ebulição, onde, em desesperada luta para fugir da morte certa, uns pisam os outros em busca de pular fora da panela. E quando um deles está prestes a fugir, o de baixo abocanha uma das suas pernas e o puxa de volta para o amontoado dos mal sucedidos da água quente.
Bem, juntar essas duas idéias é uma dose muito pesada para qualquer espasmo de auto-estima que se tenha. É a pisada que deu o elefante na cabeça do gato. Espernear mais? Pra que?
Mas, sendo eu um cara reconhecidamente teimoso, saio caminhando pela calçada da praia de Aruana, admirando aqueles restos de barracos derrubados, onde o poder público (Prefeitura, Procuradoria, Governo Estadual, Justiça…) fez o favor de dar a última cacetada nos testículos do senso de comunidade da população, deixando por um ano a praia na pior das condições, sem a mínima possibilidade de acolher qualquer cidadão que tenha o mínimo de respeito por si próprio. Um lixão. Tudo em nome do meio ambiente: meia dúzia de grauçás e umas três bribas mal nutridas.
Mas, foi lá – e aqui retorno a denunciar uma campanha para jogar nossa auto-estima pra baixo das cachorras – que vislumbrei um fantasma, que os dias haverão de apagar da minha mente. Uma imagem que há meses me persegue. Foi nessa Hiroshima que restou da Aruana, num bar denominado Botequim.com, que dei de cara com um caranguejo enorme feito de concreto – uma obra de arte – com um aviso pintado a mão em tinta óleo na sua base. Estava escrito: NÃO SUBA! A materialização perfeita daquela famigerada lenda urbana.
Pere, vamos costurar os retalhos do que falei: Serigy, complexo do caranguejo, bares ao chão, cidadãos e trabalhadores à revelia, baixa auto-estima, imobilidade social, status quo, NÃO SUBA, complexo do caranguejo, praga de Serigy. Tá bom.
Nego e renego. Não há praga de Serigy, não há complexo. Nada que não seja humano e comum a qualquer outro lugar.
Há sim imobilidade social, falta de oportunidade para as pessoas adubarem, cultivarem e porem em uso seus talentos. Isso passa pelo perfil dos pais, das escolas e das outras instituições.
Acreditar que podemos fazer é o indispensável passo inicial para fazermos e acontecermos.
Nos livremos dessa fixação por Globo, por mídia, por celebridades, pelo sucesso, e vamos reconhecer que estamos no melhor lugar do mundo pra se viver e vamos viver a nossa vida, do nosso jeito, não a vida dos outros.
Um caranguejinho com vinagrete na praia ou na croa do goré, um chopp, um suco, um sorvete, um picolé; vamos ser bons atores em casa, com os amigos; bons cantores naqueles karaokes de domingo; craques dos campos de apicum – escorrega, lá vai um - misses e deusas no Paraíso do Baixinho ou no Bar do Alves, sejamos, nós os pés-de-valsa, dancemos nossa quadrilha, façamos na nossa levada, com nosso sotaque, escrevamos cartas, bilhetes, emails de amor, sejamos escritores, poetas; sejamos nós mesmos, gozemos com a nossa própria genitália, não esperemos pra saber o que é certo na frente da tv.
Moço! Moça! Desliga a televisão, especialmente domingos à tarde. Manda Faustão tomar no cú – aquela voz chata, que não deixa o convidado falar. Pega a bicicleta e vai ver o que nós sergipanos – de fato ou de coração, brancos, pretos, mulatos, índios, ricos, pobres e remediados, analfabetos e doutores, solitária ou coletivamente - fizemos de 1855 pra cá. Onde só havia lagoas, mangues, apicuns, areais e muito mosquito, esse povo construiu Aracaju: A MAIS GOSTOSA DO BRASIL. Vocês querem mais o que?!
Teóricos da baixa auto-estima, que se rendem às bufadas teses que citei acima, por favor, peguem a mesma fila de Faustão… e vão.
12 de maio de 2009 às 6:46 pm
Grande Henrique! Sempre bom passar por aqui! Às vezes fico um tempo sem vir, é verdade! Mas aí venho e leio tudo, de cabo a rabo! Embora longe uns tantos, estou sempre fuçando em busca de saber o que se passa nessa cidade. O blog da Scombona é um excelente local para isso! Devo dizer, um pouco constrangida, que ri um bocado com o seu texto. Não pelo conteúdo e verdade colocados aqui, pois por isso daria mesmo para chorar [não de rir!]. Foi mesmo por imaginar você, nordestino convicto, narrar em seu tom de voz inconfundível a teoria do complexo de caranguejo. Voltando ao assunto sério, digo, meu filho, só damos valor a certas coisas depois que nos afastamos. Oh lugarzinho de onde sinto saudades, viu! E aqui está bom, viu! Está muito bom! Um final de semana desses, André e eu fomos dançar um forrozinho por aqui. Iniciativa de uns brasileiros que vivem cá há uns tempos e montaram a Associação Portuguesa de Forró. Trouxeram um trio de Sampa nesse dia. Já está marcado para a próxima sexta mais um trio brasileirinho. Dessa vez, só de mulheres. O nome não tenho aqui agora, mas posso deixar depois. É certo que nas festas da APF toca muito forró tradicional [de acordo com o post Por Artistas que se respeitem!], incluindo Gonzagão, mas eles dizem que dançam e fazem mesmo é forró universitário! Nomenclaturas a parte, vejo que o importante mesmo é o valor que o pessoal dá à música, à cultura, à dança de seu local. O pessoal se mobiliza, corre atrás, lugar pra apresentação, blog, agenda, e toda uma pancada de coisas que atrai público e seguidores! Tô cansada de ver português ouvindo Caçola Preta no mp3, mp4, seja que Diacho for! Tem uma rádio aqui que só toca essas bostas! A galera da APF tá fazendo a parte que lhe cabe! Arranja programação, aulinha de forró, local pra dançar, forró do bom.. Lógico que tem alguém ganhando dinheiro na história [digo logo que eu não estou!], afinal, alguém tem que ganhar com isso, né, mas o importante é a abertura de espaço que está sendo possível a partir dessas ações. Como o pessoal vem do Brasil pra tocar aqui, não sei. Ganham algo? Também não sei. Ainda não parei pra conversar com a guria da APF, a Érika. Sei que é um excelente canal e ao menos um cdzinho com umas músicas de forró sergipano vou levar pra tocar nas festas da APF! Isso fico devendo! E pagarei, certamente! Pra encerrar, ‘…vamos viver a nossa vida, do nosso jeito, não a vida dos outros.’ Beijos, saudades, saudades!
13 de maio de 2009 às 8:45 am
Associação Portuguesa de Forró! Essa é demais! Mas fiquei muuuuito feliz com isso, Rita.
Obrigado pela presença no Blog e pelas palavras de quem vê as coisas de vários ângulos.
Voltando ao forró, me ponha em contato com Érica pra a gente mandar uns forrozeiros bons daqui pra aí. Conheço muitos!
E eu vou, pra mostrar como é que se faz um riscado bonito no salão.
13 de maio de 2009 às 10:55 am
Pois é, Associação Portuguesa de Forró. E leva uma galerinha pros arrastapé, viu! A APF é luso-brasileira na verdade, e não somente brazuca como eu falei. Esse é o blog da APF http://www.apforro.blogspot.com Dá uma passadinha por lá!
)
Beijos
14 de maio de 2009 às 10:49 pm
Muito bom texto, deu pra ter uma idéia da sensação de ver aquele caranguejo no meio do nada ahuahuaha, completamente macaabro. e a conclusão foi de uma clareza sensacional, parabéns cara. Vamos sim praticar a masturbação cultural, se caso rolar uma carioca, ou uma recifense, quem sá uma gringa afim de copular… ótimo! =)
14 de maio de 2009 às 11:07 pm
Tudo bem pessoal,
Confesso que fui o autor do caranguejo, mas da frase não. Coitado do caranguejo, os brucutus o demoliram junto com os barracos, e eu pensava até em restaurá-lo.
Agora, esta praga do Cacique Serigy só pega em quem já é baixoastral mesmo.
Abraço,
Cruz