Pense num cabra ruim de leitura! Se não pensou, deveria ter pensado em mim. Mas vez por outra me encontro já por outros mundos, nas boas palavras de bons livros…
Fui apresentado ontem a um poeta espanhol que, dentre outras obras, escreveu PLATERO E EU. Platero é o jegue de – e com – quem fala o autor/menino em seus textos.
Reproduzo a seguir uma pequena passagem enviada à rede de funcionários do meu trabalho por Osório Sobrinho.
“ O POÇO
O poço!… Platero, que palavra mais funda, verde-escura, fresca, sonora! Parece que é a palavra que perfura a terra escura, girando, até chegar à água fria.
Olha; a figueira adorna e obstrui o bocal. Dentro, ao alcance da mão, entre os tijolos com limo, abriu-se uma flor azul de cheiro penetrante. Mais embaixo, uma andorinha tem seu ninho. Depois, atrás de um pórtico de sombra imóvel, há um palácio de esmeralda, e um lago, que, quando se joga uma pedra em sua quietude, se zanga
e grunhe. E, no fim, o céu.
A noite chega e a lua se inflama, lá no fundo, adornada de estrelas volúveis. Silêncio! Pêlos caminhos se foi a vida para longe. Pelo poço, a alma escapa às profundezas. Por ele vê-se como que o outro lado do crepúsculo. E parece que de sua boca vai sair o gigante da noite, dono de todos os segredos do mundo. Õ labirinto quieto e mágico, parque sombrio e fragrante, magnético salão encantado!
- Platero, se um dia eu me jogar nesse poço, não será para me matar, acredite, mas para pegar as estrelas mais depressa.
Platero zurra, sedento e ofegante. Do poço, assustada, agitada e silenciosa, sai uma andorinha.”