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Em forma de pescoço

Por: Henrique Teles    |    1 de maio de 2010

Ou, simplesmente, coliforme.
Antes mesmo do meu desjejum da manhã de sábado, na descida da Beira Mar para a Saneamento, leio de canto de olho a manchete de um dos diários impressos da cidade pendurado entre os dedos do vendedor: PRAIAS DE ARACAJU IMPRÓPRIAS PARA BANHO, ou algo parecido. Na ligeireza de aproveitar o sinal aberto, saí meio ausente de mim, como se houvesse visto um espírito – coisa que a gente sabe que existe, mas não quer ver.
Todos nós sabemos que nosso cocô tem encontro marcado conosco na praia no final de semana. É certo. Mas fugimos desse fantasma, afinal o mal-cheiroso não aparece em “carne e osso”, restando-nos apenas o seu vulto microscópico e “em forma de pescoço”.
Já tive oportunidade de falar inúmeras vezes da falta de carinho dos órgãos públicos com nossas águas. E qualidade de vida começa pelo nosso bem mais precioso, o maior bem de todo o planeta.
No último post, falei da perseguição aos barraqueiros da Aruana. Dos despropósitos do poder público ao se debruçar sobre um problema tão irrelevante para o meio ambiente de nossa cidade. Preciosismo legal.
Chega a ser risível ver a justiça que permitiu a construção da pista por riba da mesmíssima praia, que tolera outros tantos empreendimentos em dunas, de fora a fora, colaborar com um ato de força, sobre quem não tem do que se valer. (E não me venham falar da exceção Antônio Leite).
Não bastassem as obras que em nome do progresso dão passe livre para crimes ambientais, o crime oculto do NÃO FAZER o que deveria ser feito, espalha-se invisível como os próprios coliformes.
Para que me alongar mais? Não vou. Perguntar?! Nem seria preciso.
Mas a gente se faz de besta e pergunta mesmo assim. Ora, se não se ocupam esses órgãos públicos de frivolidades jurídicas de notáveis prejuízos humanos, não sobraria tempo para (exigir) cuidarem das nossas águas, impedindo o despejo de tantos dejetos nos rios e praias?
O Ministério Público Federal funciona hoje a 200 metros de um canal a céu aberto, que despeja podridão no Rio Sergipe. Dentro de mais alguns anos o órgão passará a ter sede própria na beira da mesma valeta. Espero que possamos enxergar melhor esse tão grande mal que desnutre a nossa qualidade de vida, senão, onde vamos parar?

Nossos golfinhos

Por: Henrique Teles    |    17 de abril de 2010

Soube ontem por intermédio do amigo Arivaldo que os golfinhos têm reaparecido estes dias no estuário do Rio Sergipe (com a maré cheia, claro) ali nas imediações do Iate Clube.
É uma boa pedida para o entardecer ou amanhecer. É só checar antes a tábua de maré (disponível na internet).

Desengasgando perguntas

Por: Henrique Teles    |    11 de abril de 2010

Não posso deixar nem de reconhecer o absurdo que os moradores estão passando, nem de tirar umas perguntinhas que arranham minha goela:

- Há quanto tempo existe o condimínio Costa do Sol?
- É difícil perceber a olho nu, que quem construiu aquele condomínio o fez sem gastar um tusta com aterro e terraplenagem, e que a área é completamente abaixo do nível da vizinhança? Quem ganhou dinheiro com aquele empreendimento?
- Houve responsabilização de quem permitiu a construção do condomínio naquelas condições? E do empresário?
- Qual o nome da empresa/empresário que construiu aquilo?
- Somente o Costa do Sol sofre com as chuvas?
- Vai ter hospedagem e casa alugada para outros cidadãos desabrigados?
- Será praxe agora em toda situação igual esses procedimentos?
- Há a mesma repercussão na imprensa e na justiça de casos semelhantes ou piores?
- O dinheiro gasto pela prefeitura é de quem mesmo?

Acho que pairam mais perguntas além destas, bem como há outros caminhos de buscar fazer justiça.

Raciocínio Estreito

Por: Henrique Teles    |    4 de abril de 2010

Seria inevitável a comparação.
Meses adiante ainda se vai medir defeitos e virtudes das duas pontes: Construtor João Alves e Jornalista Joel Silveira.
Dá lincença rapidinho pra eu falar sobre os nomes. Gosto de nomes populares para obras públicas. Aqui não temos esta tradição de o povo batizar lugares com lindos termos, como cantou Alceu em Pelas Ruas que Andei, mas prefiro nome de populares a nome de pessoas ligadas ao poder da época. Com todo respeito aos cidadãos que cederam nome às duas obras, e respeito à opinião de que “Grandes obras merecem o nome de grandes homens”, por isto mesmo, pra mim elas terão sempre os nomes de ponte Zé Peixe, construída durante o nada saudoso governo João Alves, e Ponte do Mosqueiro, recém-inaugurada.
Nunca esqueci de Trabalhadores do Metrô, uma música cantada por Xangai, composição de R.M.Santos e Walter Marques (clique aqui para ouvir), que me chamou atenção para esta história dos nomes estarem sempre ligados ao poder.
Mas, para não fugir do tema, falemos das pontes. Prometi a mim mesmo que retorno à primeira para sacramentar minha brochante impressão ao galopar o lombo da segunda, a caçula. Cá estamos nós de novo vendendo gato por lebre? Esta pergunta veio logo ao meu juízo. Pelo tanto que se falou, eu – euzinho aqui – esperava bem mais.
Certamente voltarei a comentar sobre esta superhipermegapublicitada obra, cuja badalação me remete aos nada saudosos tempos de governos passados. Tempos que pra mim já eram passado, mas não são.
A utilíssima Ponte Joel Silveira, não é apenas feia. Funcionalmente parece também ter sido feita a facão. “Desculpe o modo de te dizer”, caríssimo e respeitável administrador.
Estreita, será um possível gargalo para o crescente número de carros que comporão o desejado vai-e-vem Sergipe-Bahia.
Estreita, é potencial ponto de acidentes, na possibilidade de quebras de carros na sua descida, já que quem está subindo não sabe o que lhe espera após a lombada. Numa via de acostamento medíocre, pouco resta ao motorista para desviar e evitar um choque com quem trafega em sentido contrário.
Estreita, não tem ciclovia, traindo de forma dura os anseios de toda uma comunidade que espera mais espaços para pedalar, com mais segurança.
Não desci ainda para atravessar caminhando, mas vou fazer isto também, pois tive uma clara impressão que a passarela de pedestres acompanha a personalidade da ponte: estreita.
Com tudo isto, receio que a construção seja fruto de um raciocínio estreito sobre arquitetura, engenharia, política e publicidade. Ficaria feliz se o meu raciocínio, sim, estivesse sendo limitado; que eu estivesse estreitamente enganado, que o custo benefício justificasse o utilíssimo pontilhão que cruzei ontem, oxalá! Aí volto aqui e faço minhas ponderações obrigatoriamente.
Por enquanto, choro minha decepção por esperar uma ponte mais larga, com mais espaço para os ciclistas e pedestres.

Confesso também que ainda me incomoda o barulhinho e o tombo daquelas 30 placas que dão um desconfortável perfil polilátero à superfície da ponte. Ficou meio playmobil.
Falo disto em outra ocasião.

Aracaju no Jornal Hoje

Por: Henrique Teles    |    27 de março de 2010

Aquilo não me cheira bem – 52% dos votos para Aracaju – mas é o mesmo mal-cheiro que exalam aquelas imagens dos barquinhos no Rio Sergipe. Putsss… Imagem é tudo, e a propaganda conta muito com imagens. A visão é o principal sentido dos trouxas e é aí que a televisão deita e rola. Os nossos rios urbanos estão seguindo o mesmo caminho dos de outras capitais – como Recife – virando uma valeta, um esgotão.
Eu queria ver aqueles turistas pularem da ponte do imperador!
Amigos, não se aborreçam comigo, mas tenho que ser justo, porque falei a mesmíssima coisa na administração do nada saudoso Gov. João Alves Filho: gostaria que como prova da boa administração das águas da nossa cidade, Deda e Edvaldo dessem um mergulho da Ponte do Imperador – com a maré seca.
Aí sim, eu seria frequentador assíduo daquelas águas e sentiria orguuuuuuuuuuuuuuuuuuulho de ver Aracaju chamando o Brasil para nossos rios e praias. Coitados daqueles golfinhos!
De um atracadouro que na realidade é ponte e uma beira-mar que beira mesmo é o rio, dá até pra achar graça, mas, ao ver um esgoto ser mostrado como cartão-postal para quem gasta seu dinheirinho pra vir nos visitar, por enquanto o que sinto é uma dorzinha desconfortável de quem se põe a vender gato por lebre.
Ainda há tempo de transformar nossa cidade num paraíso de verdade, destino de turistas que procuram lugares, de fato, bem cuidados.

Por participar da realização de exposições nos últimos meses na Galeria Álvaro Santos (GAAS) em Aracaju, venho através da epístola dividir um pouco da experiência com o caro leitor, assim como eu, interessado no desenvolvimento das artes do Estado e preocupado com a instrumentalização qualificada e necessária das atividades relacionadas ao seguimento.

É preciso estar in loco e ativo, para ver que a GAAS precisa de um gás. Precisa de um gás natural. Deve provir de ‘conceito’ o planejamento de reestruturação do espaço. Algo quase divino, digno da fé que alguns ainda resistentes perseguem no viver artístico sergipano. Um gesto de sensibilidade, uma entrega delicada, quase que um amparo materno. Não reivindico grandes captações financeiras para revitalização de espaços públicos, nem tampouco projetos mirabolantes para encher de pão o ‘pano de roda’ que nosso circo sempre foi, mas um prestar sensível num gesto sincero em prol daquele espaço.

Não basta estar de pé é preciso ser impávido que nem Zé Adilson sergipano – o boxeador Maguila, para não se deixar abater no piso da galeria, um azulejo feio e mal rejuntado. São muitos os golpes baixos. Não há capital disponível para manutenção permanente do espaço. No corner, as paredes tortas por deformação tem algumas infiltrações. Os spots nos proporcionam um lindo efeito ‘jardim’ enquanto basculantes deixam a luz externa invadir sem controle. Os aparelhos de ar condicionado expostos são quase dadaístas não fosse à intenção. Há pouco preparo dos dedicados profissionais públicos que ali cumprem as ‘obrigações do servidor’ (salve o estagiário). A guarda está aberta e o banheiro que fica na entrada da sala de exposição serve de banheiro público aos moradores da Praça Olímpio Campos. E no nocaute as TVs, cumpridoras da pauta ‘jornalística’ de suas agendas culturais, estão autorizadas a ligar refletores de 1000 w durante o vernissage, causando a “cegueira” de quem está ali para ver.

Reivindico a Álvaro Santos impregnada de um novo conceito, sob a luz da contemporaneidade da diversidade artística sergipana, flexível e estimulante ao sugerir o aproveitamento total e criativo de seu espaço físico.

Quando começamos a pensar a exposição coletiva “Anistiados” com obras de Bosco Rolemberg, textos e instalação de colaboradores e com curadoria de Joana Cortes, seguimos procedimentos óbvios de produção. Como exemplo de contraponto o tropeço no primeiro movimento. Solicitamos a planta baixa da galeria e os humildes funcionários, sem direção desde junho deste ano, não sabiam nem a medida do pé direito. Subtraindo analfabetos, anônimos e os que a visitariam aos sábados, a exposição registrou 702 pessoas em seu caderno de visitas. Tenho fé que esse número pode ser maior se nos educarmos a mecanismos eficazes. Futuras exposições, independente do tema ou da forma inovadora com que sejam apresentadas, levarão mais interlocutores ao diálogo com o sonho expresso por seus autores.

DáIôIô – Lambe-sujoxCaboclinhos, está aberta até o final de outubro e reúne 20 suspiros, registros do olhar de Camile Levita, fotógrafa que nesse trabalho documental torna pública a pesquisa que vem sendo feita desde 2007 do imaginário folclórico e do cotidiano sergipano.

Vamos pintar a galeria de marrom? Porque não? É a cor do Cabaú, não é? Claro, assim evidenciaremos os trabalhos numa atmosfera mística e intimista, agregando valor com a intervenção no espaço. Perfeito, concluímos. Triste é ter que fazer só com dinheiro do bolso do expositor. Visitar tantas exposições para entender porque aquele papel Fine Art Velvet (papel utilizado na impressão) composto de fibra de algodão dá outra dimensão ao resultado final do trabalho e ter que tirar só do seu bolso é duro.

Ao final da exposição partilharemos da obrigação de deixar uma dessas impressões para o acervo da galeria. De bom tom, uma obrigação justificável, mas sinceramente não o faria já que o espaço não a comportaria com o cuidado necessário.

Vou com fé. Glórias a iniciativa do poeta da rua, resistente ao ordinário, André Teixeira que sugere em seu blog a indicação de Ilma Fontes para a direção da GAAS e louvores fervorosos ao coletivo no Beco dos Cocos, estimulo a arte fora das galerias.

Tolero, logo perco

Por: Henrique Teles    |    12 de junho de 2009

Passar beirando aquelas redes
Quantas vezes!
Nada fiz
Pensar no que é esse absurdo
E apenas procurar as bóias
E apenas “ir mais pra lá”
Nunca rasguei uma rede de pescador
Nunca me agarrei no tapa com ninguém por conta disto
Nunca liguei pra Messias Carvalho
Nunca denunciei
Nem reclamei nesse blog
Nunca fiz nada
Nunca houvera morrido ninguém!

Ah, aquele amigo promotor vai passar de kite e ver
Ou algum repórter sem outra matéria pra fazer
Vai resolver falar
E aí os dias passam
Volto lá e pego minhas ondas
Reencontro as redes e remo ao largo
E aí os dias passam
Até que um dia
Aquilo que sempre esteve ali
Que nunca mentiu, nem se escondeu
Matou mais um Boto, cumpriu sua missão…
Eu não…
Nem outros tantos de nós…
Toleramos, logo perdemos.